Casal feliz, comunicativo.

Você está percebendo as tentativas de conexão do seu parceiro?

“Olha isso aqui.”

“Você não sabe o que aconteceu hoje.”

“Olha aquele cachorro.”

“Você sabe o que eu comi no almoço?”

Nenhuma dessas frases parece particularmente importante. Em um relacionamento, são apenas pequenas interações que acontecem o tempo todo.

Justamente por isso, é fácil ignorá-las.

Afinal, que diferença faz não olhar um vídeo que seu parceiro quer mostrar? Ou responder distraidamente a uma história sobre uma conversa que ele teve no trabalho?

Isoladamente, talvez pouca.

O problema é que relacionamentos não são construídos por interações isoladas. Eles são construídos pela repetição de padrões. E aquilo que parece trivial em um momento pode adquirir um significado muito diferente quando acontece repetidamente.

O que são bids for connection?

O conceito de bids for connection, associado às pesquisas de John Gottman, pode ser entendido como tentativas de conexão.

Um bid é uma tentativa de estabelecer algum tipo de contato, proximidade ou compartilhamento com o parceiro.

Ele pode aparecer de maneiras bastante simples: mostrar algo no celular, comentar o que aconteceu no trabalho, apontar alguma coisa na rua ou contar o que comeu no almoço.

Nem sempre o conteúdo da interação é o ponto principal.

Às vezes, ao dizer “olha isso”, a pessoa não está apenas transmitindo uma informação. Ela está, ainda que de forma pequena, convidando o outro a entrar por alguns instantes na sua experiência.

O problema não é uma interação ignorada

Ninguém consegue estar disponível o tempo inteiro.

Você pode estar trabalhando, cansado, concentrado ou simplesmente sem disposição para conversar naquele momento. Responder a uma tentativa de conexão não significa abandonar qualquer outra atividade para dar ao parceiro toda a atenção que ele deseja.

O problema está no padrão.

Quando a proporção entre responder e não responder pende repetidamente para a não responsividade, algo que parecia pequeno pode começar a produzir consequências maiores.

Imagine alguém que frequentemente tenta compartilhar coisas com o parceiro e recebe respostas distraídas, ausência de resposta ou demonstrações de desinteresse.

Com o tempo, essa pessoa pode começar a interpretar essas interações como:

“Ele me acha chata.”

“Ela não se interessa pelo que eu tenho a dizer.”

“O afeto está diminuindo.”

“A pessoa está se afastando.”

Essas interpretações não precisam necessariamente ser verdadeiras. O parceiro pode estar distraído, sobrecarregado ou simplesmente não perceber aquelas interações como tentativas de conexão.

Mas intenção e consequência não são a mesma coisa.

Uma pessoa pode não ter a intenção de afastar o parceiro e, ainda assim, participar de um padrão que produz afastamento.

Mudar de assunto também pode ser uma forma de não responder

Ignorar uma tentativa de conexão não significa necessariamente permanecer em silêncio.

Imagine que uma pessoa diga:

“Olha isso que eu achei engraçado.”

E o parceiro responda:

“Você lembra de pagar aquela conta hoje?”

Ou:

“Você não sabe o que aconteceu no meu trabalho.”

“Ah, falando nisso, amanhã precisamos comprar papel higiênico.”

Em ambos os casos, houve uma resposta. Mas não necessariamente houve responsividade ao que o parceiro tentou compartilhar.

A conversa continuou, mas a tentativa de conexão ficou pelo caminho.

Isso é importante porque, muitas vezes, acreditamos que estamos prestando atenção apenas porque respondemos alguma coisa. Mas responder não é apenas emitir qualquer comportamento após o outro falar.

Também envolve, em algum grau, responder àquilo que a pessoa realmente trouxe.

O que acontece quando tentar se aproximar deixa de funcionar?

Se uma tentativa de conexão produz repetidamente uma consequência frustrante, é provável que o comportamento comece a mudar.

A pessoa pode insistir inicialmente. Pode tentar novamente. Pode mudar sua estratégia. Pode aumentar a intensidade da tentativa.

E, em algum momento, pode simplesmente parar de tentar.

Isso não significa necessariamente que ela perdeu o interesse pelo relacionamento.

Pense em uma máquina de salgadinhos. Frequentemente, você coloca dinheiro, aperta o botão e o salgadinho cai. Um dia, a máquina quebra.

Você pode tentar novamente. Pode apertar o botão com mais força. Pode tentar outras vezes. Pode até chacoalhar a máquina.

Mas, se ela continuar sem entregar o que você está tentando obter, em algum momento você provavelmente vai parar de tentar.

Não porque perdeu o interesse pelo salgadinho, mas porque seu esforço passou a parecer infrutífero.

Algo semelhante pode acontecer nas relações.

Quando uma tentativa de aproximação frequentemente não produz proximidade, atenção ou compartilhamento, a própria frequência dessas tentativas pode diminuir.

E esse processo pode ser facilmente mal interpretado.

Um parceiro deixa de buscar contato, conversar ou compartilhar pequenas coisas. O outro percebe o afastamento e conclui: “Ele não se interessa mais por mim.”

Mas, em alguns casos, a redução das tentativas pode não ser o início do problema. Pode ser uma consequência de várias tentativas anteriores que deixaram de produzir o resultado esperado.

Quando uma tentativa de conexão vira uma reclamação

Esse processo também ajuda a entender algumas críticas que aparecem nos relacionamentos.

“Você nunca presta atenção em mim.”

Vista isoladamente, essa frase parece apenas uma reclamação.

Mas ela pode ser o estágio posterior de várias interações anteriores:

“Olha isso.”

“Posso te contar uma coisa?”

“Olha o que aconteceu hoje.”

“Você viu aquilo?”

Em nossas interações com outras pessoas, estamos constantemente interpretando não apenas aquilo que elas dizem, mas também seus comportamentos.

Quando a baixa responsividade se repete, ela pode gerar frustração, tristeza e a interpretação de que o outro simplesmente não presta atenção.

A crítica, então, pode surgir depois de várias tentativas de aproximação que não funcionaram.

Isso não significa que toda reclamação esconda uma tentativa de conexão. Seria uma simplificação excessiva.

Mas, em alguns relacionamentos, olhar para o que aconteceu antes da crítica pode ajudar a compreender melhor como aquela dinâmica se desenvolveu.

O que as pesquisas mostram?

A importância dessas pequenas interações não é apenas uma intuição.

Nas pesquisas que deram origem à popularização do conceito de turning toward, o Gottman Institute relata um acompanhamento de recém-casados ao longo de seis anos. Ao final do período, os casais que permaneceram casados haviam respondido às tentativas de conexão um do outro aproximadamente 86% das vezes, enquanto os casais que se divorciaram responderam cerca de 33% das vezes.

Esse dado não significa que responder a uma determinada porcentagem das tentativas de conexão impede o divórcio, nem que existe uma proporção mágica capaz de prever o futuro de uma relação.

O que ele mostra é algo mais simples e, talvez, mais importante: a forma como os parceiros respondem às pequenas tentativas de aproximação não é irrelevante.

Essa conclusão também conversa com uma literatura mais ampla sobre responsividade percebida do parceiro, isto é, a percepção de que o outro demonstra compreensão, validação e cuidado. Estudos sobre relacionamentos têm associado maior responsividade percebida a maior intimidade e satisfação relacional.

Portanto, embora não seja possível reduzir a qualidade de um relacionamento à frequência com que alguém responde “olha isso aqui”, essas pequenas interações fazem parte de um padrão maior de proximidade, atenção e responsividade.

Responsividade não significa disponibilidade constante

Reconhecer a importância das tentativas de conexão não significa que você precisa estar disponível o tempo inteiro.

Você pode não conseguir conversar naquele momento.

Mas é possível reconhecer a tentativa e comunicar isso.

Por exemplo:

“Eu quero ouvir, mas agora estou concentrado nisso. Quando eu terminar, você me conta?”

Nesse caso, você não está oferecendo a atenção desejada naquele instante. Mas está comunicando que percebeu a tentativa e que ela importa.

Não responder imediatamente e ignorar não são exatamente a mesma coisa.

O que vale observar no seu relacionamento?

Talvez a pergunta não seja apenas quantas grandes conversas vocês têm ou com que frequência fazem programas juntos.

Também pode ser útil observar as pequenas tentativas de aproximação que acontecem todos os dias.

Como seu parceiro costuma buscar conexão?

Ele mostra algo no celular? Conta histórias? Faz perguntas? Procura contato físico? Comenta coisas aparentemente aleatórias?

E como você costuma responder?

Quando ele fala algo, você responde ao que ele trouxe ou frequentemente introduz outro assunto antes de reconhecer aquilo que estava sendo compartilhado?

É possível que algumas dessas interações tenham se tornado tão frequentes que você simplesmente deixou de percebê-las.

No fim, algo que seu parceiro mostra pode parecer apenas algo.

Uma história sobre o almoço pode ser apenas uma história sobre o almoço.

Mas, em um relacionamento, pequenas interações também podem ser oportunidades repetidas de comunicar algo maior:

“Eu estou interessado no seu mundo.”

E, quando essa comunicação deixa de acontecer repetidamente, as consequências podem ser muito menos triviais do que a interação que deu início a tudo.

Um convite à reflexão

Ao longo dos próximos dias, experimente prestar atenção às pequenas tentativas de conexão que acontecem no seu relacionamento.

Não apenas às conversas importantes ou aos pedidos explícitos de atenção, mas também ao que parece trivial.

Quando seu parceiro conta algo sobre o dia, compartilha uma observação aparentemente sem importância ou comenta algo aleatório, tente perceber o que está acontecendo antes de responder automaticamente.

Não se trata de estar disponível o tempo todo ou de transformar cada interação em algo importante.

Trata-se de observar um padrão.

Você tem respondido às tentativas de conexão do seu parceiro ou elas frequentemente acabam ficando pelo caminho?

E, talvez, uma pergunta ainda mais importante:

Como você costuma fazer as suas próprias tentativas de conexão e o que acontece, na maioria das vezes, quando você tenta se aproximar?

Às vezes, antes de procurar grandes explicações para o distanciamento em um relacionamento, pode valer a pena olhar para as pequenas interações que acontecem todos os dias.

Porque uma história sobre algo que aconteceu no dia pode parecer apenas uma história.

Mas também pode ser uma pequena forma de perguntar:

“Você ainda está interessado em saber sobre o meu mundo?”

Referências

Gottman Institute. Turn Towards Instead of Away.

Gottman Institute. Make or Break Your Relationship: The Little Things.

Gottman Institute. A Deeper Look Into Turning Away From Your Partner.

Arican-Dinc, B., & Gable, S. L. (2023). Responsiveness in romantic partners’ interactions. Current Opinion in Psychology.

Candel, O. S., & Turliuc, M. N. (2021). The Role of Relational Entitlement, Self-Disclosure and Perceived Partner Responsiveness in Predicting Couple Satisfaction: A Daily-Diary Study. Frontiers in Psychology.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *